LEMBRANÇA DO CEARÁ
COLÉGIO NOSSA SENHORA DO CANINDÉ Aluna: Francineide Garcia da Silveira Carvalho Professora: Adriana Kildson Disciplina: Português Série: 8a Série do Ensino Fundamental Turma B – Turno: Manhã
R E D A Ç Ã O
TEMA: MINHAS FÉRIAS SUBTÍTULO: MINHAS IMPRESSÕES DO CEARÁ
Finalmente retornamos, eu e minha família, do Ceará. Não que tenha sido uma viagem desagradável, mas eu estava morrendo de saudade de minha querida São Paulo.
O irmão de meu pai está morando em Fortaleza desde que assumiu um cargo oferecido num concurso desses cujo salário faz valer a pena deixar sua terra natal e se mandar para um lugar distante como Norte ou Nordeste.
O Ceará não é como nos apresentam aqui. Não é uma terra desolada, cheia de gente passando fome e sede num chão todo rachado. Pelo menos não a maioria do Estado. Há muitas coisas boas, como os lugares, por exemplo.
O que é ruim no Ceará é a impregnação que fica em nós de todas as coisas cearenses. Vou tentar explicar!
Há uma coisa indescritível, assim, sei lá, como se fosse mágica, que nos transforma em cearense a partir do instante em que desembarcamos ali. Talvez seja alguma coisa no ar.
Escrito por Tony Maclaud às 20h17
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CONTINUAÇÃO
Chegamos pela manhã em Fortaleza. Percebi isto a que me refiro logo no aeroporto, pois, facilmente se podia distinguir os cearenses dos demais. Tá certo que a estatura baixa, a cor amorenada e a famosa cabeça chata são características predominantes, mas há outra: os modos! As pessoas lá andam mais devagar e de um modo que não consigo descrever. É como se tivessem acabado de receber um notícia boa ou se tivessem finalmente pago uma conta enorme e antiga. Ah! Acho que sei como definir: leveza. É isto.
Outra coisa marcante é o sorriso. Não precisa muito para estamparem um sorriso na cara. Claro, não ficam dando gargalhadas como gente boba, mas a impressão é de que são permanentemente felizes.
Adoram festas. Há festas em vários clubes todos os dias da semana e quando chega sexta-feira e sábado, então, nem se fala.
É um povo que não gosta muito de silêncio. Logo no café as famílias numerosas fazem um verdadeiro alvoroço à mesa. Os problemas inclusive podem ser perfeitamente resolvidos lá, pois não é difícil a mãe ou o pai dos jovens brigarem com eles. Mas o que é fascinante é que ninguém fica magoado, mesmo que tenha levado uma porrada (o que não é raro). Quando chega a noite a moçada se reúne nos barzinhos onde iniciam o processo de embriaguez e as discussões acerca do destino que tomarão mais tarde, ou seja, para qual boate ou casa de show irão.
Para se ter um idéia da “impregnação cearense” na gente basta dizer que cheguei pela manhã e à noitinha já estava involuntariamente chamando todo homem de “macho” e toda menina de “mulher”. No quarto dia eu só conseguia almoçar se tivesse como acompanhamento um naco enorme de rapadura. No dia seguinte já havia desistido de mudar de estação de rádio em busca de algum estilo de música diferente do forró. Aliás, eu sempre pensei que forró fosse uma coisa com sanfona e triângulo, tocada por gente usando chapéu de couro. O que chamam de forró aqui é uma banda com uns quarenta componentes (sem exagero algum) entre músicos, dançarinos fazendo malabarismo e contorcionismos e cantores. Isso mesmo, cantores, são pelo menos três para cada banda cantando alternadamente ou ao mesmo tempo. Um barulho infernal. As músicas são, em geral, versões aforrozeadas do que outrora fora antigos sucessos internacionais ou mesmo sambas, pagodes, músicas sertanejas, etc. Não precisa ter voz melodiosa para ser cantor de forró. Pode ser anasaladíssima, quase fanhosa ou rouca. O que importa é que seja estridente e que o cantor ou cantora se comprometa em (a cada dois minutos) gritar o nome da tal banda e o volume do cd. Talvez porque todo mundo canta música de todo mundo e as vozes são sempre muito parecidas. Para finalizar devo lembrar que não há show exclusivo. Numa única apresentação podem se apresentar até dez bandas, alternadamente, claro.
É assim mesmo. O pessoal gosta de barulho. Só para ter mais uma idéia dou outro exemplo: a gente não consegue conversar direito nos bares porque tem sempre dois ou três carros com os porta-malas levantados exibindo enormes caixas de som ou mesmo rebocando paredões de alto-falantes estourando os ouvidos de todo mundo com... adivinha? Forró.
As praias. As praias são cheias. Muita gente com biquini minúsculo e tanguinha. O sol é escaldante e as pessoas não se importam em só sair debaixo dele depois que estiverem comprometidas com uma queimadura de segundo grau e um filhote de câncer de pele.
Eu fiquei debaixo de uma barraca enorme e toda calabreada (expressão cearense) de bloqueador solar nº 50. Contudo isso acho que peguei uma ensolação daquelas que nos fazem ter delírios, porque sou capaz de jurar que ouvi o borbulhar de fervura vindo de dentro de alguns cocos que havia num coqueiro anão plantado pertinho onde eu estava sentada. Mas, pensando bem, pode até que estivessem fervendo, de fato.
Fomos numa cidade do interior cujo nome é o mesmo do nosso colégio: Canindé. Vi milhares de peregrinos – chamados romeiros – visitando a cidade. Mas foi só o que vi pois o calor ali é tão intenso que passei a maior parte do tempo semi-desmaiada e desidratada apesar de estar o tempo todo tomando água, sucos, refrigerantes e isotônicos. O calor é muito maior do que num deserto. Sou capaz de apostar. Mesmo assim as pessoas aparentavam um ar de felicidade e calma. E andavam todas no meio da rua sem se preocupar com os automóveis.
De Canindé fomos até uma cidade serrana chamada Guaramiranga. Apesar de estarmos em pleno semi-árido o clima da serra nada deixa a desejar em comparação ao friozinho de São Paulo.
É muito engraçado conversar com os cearenses, sem querer menosprezá-los, é claro. O modo de falar deles é, de fato, muito engraçado. Falam rápido, engolem sílabas e até mesmo palavras inteiras. Usam um sotaque muito legal que em nada se parece com aquela imitação barata de nordestino que vemos atrizes a atores de novelas tentando fazer. Nada se parece com o sotaque “cantado” dos baianos e não usam termos como “o xente”. Em compensação eles têm um vocabulário próprio e que, creio eu, só os cearenses entendem. Com exceção dos jovens que parecem ter vergonha de seu linguajar nativo, ao contrário da juventude gaúcha que o preserva, todo mundo entende se alguém disser: “oí, mulher, aquele caba deu um coió medõi quando tu passou”. Há nas bancas e livrarias dicionários do cearês, onde a gente pode aprender a se comunicar e compreender muita coisa do que parece ser um dialeto. As vezes alguém passa horas falando com a gente e no final não deu para entender um terço do que foi dito. Mas eles se entendem. Isso eu achei fascinante.
O cearenses são maravilhosos e inteligentíssimos. Traçam os primeiros lugares de qualquer concurso nacional e ainda tomam a vaga que houver em qualquer emprego.
As pessoas falam umas com as outras, mesmo com as que não conhecem. Se você perguntar onde é uma rua, a pessoa indagada se oferece para levar você lá. Se você tropeça e cai na rua não vai faltar que tente levantar-lhe. Mas também quem cai, tropeça ou faz alguma coisa por engano toma uma vaia enorme. O cearense adora vaiar. São vaias estridentes e de um modo bem peculiar.
Por falar em vaia...o Ceará é um... como direi? ...uma indústria de comediantes! Todo mundo tem veia cômica. As pessoas riem de si próprias e de qualquer coisa. Os humoristas nas inúmeras casas de shows são engraçadíssimos e os turistas adoram.
Finalmente, tirando uma coisa ou outra, o resto é tudo bem parecido com Sampa querida. Cheia de prédios, violência, péssimos motoristas, uma poluiçãozinha, favelas, sujeira, etc.
Pois bem, agora finalizo a redação a la cearense: “meu bixim”, dá licença mas eu agora vou “pegar a reta”. SÃO PAULO, SÃO PAULO, DOZE DE AGOSTO DE 2005.
Escrito por Tony Maclaud às 20h16
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