TONY MACLAUD - O BOM CEARENSE
     



BRASIL, Nordeste, Homem, Viagens, Livros, GEOGRAFIA
   
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LEMBRANÇA DO CEARÁ

COLÉGIO NOSSA SENHORA DO CANINDÉ
Aluna: Francineide Garcia da Silveira Carvalho
Professora: Adriana Kildson
Disciplina: Português
Série: 8a Série do Ensino Fundamental
Turma B – Turno: Manhã

R E D A Ç Ã O

TEMA: MINHAS FÉRIAS
SUBTÍTULO: MINHAS IMPRESSÕES DO CEARÁ


Finalmente retornamos, eu e minha família, do Ceará. Não que tenha sido uma viagem desagradável, mas eu estava morrendo de saudade de minha querida São Paulo.

O irmão de meu pai está morando em Fortaleza desde que assumiu um cargo oferecido num concurso desses cujo salário faz valer a pena deixar sua terra natal e se mandar para um lugar distante como Norte ou Nordeste.

O Ceará não é como nos apresentam aqui. Não é uma terra desolada, cheia de gente passando fome e sede num chão todo rachado. Pelo menos não a maioria do Estado. Há muitas coisas boas, como os lugares, por exemplo.

O que é ruim no Ceará é a impregnação que fica em nós de todas as coisas cearenses. Vou tentar explicar!

Há uma coisa indescritível, assim, sei lá, como se fosse mágica, que nos transforma em cearense a partir do instante em que desembarcamos ali. Talvez seja alguma coisa no ar.



Escrito por Tony Maclaud às 20h17
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CONTINUAÇÃO

Chegamos pela manhã em Fortaleza. Percebi isto a que me refiro logo no aeroporto, pois, facilmente se podia distinguir os cearenses dos demais. Tá certo que a estatura baixa, a cor amorenada e a famosa cabeça chata são características predominantes, mas há outra: os modos! As pessoas lá andam mais devagar e de um modo que não consigo descrever. É como se tivessem acabado de receber um notícia boa ou se tivessem finalmente pago uma conta enorme e antiga. Ah! Acho que sei como definir: leveza. É isto.

Outra coisa marcante é o sorriso. Não precisa muito para estamparem um sorriso na cara. Claro, não ficam dando gargalhadas como gente boba, mas a impressão é de que são permanentemente felizes.

Adoram festas. Há festas em vários clubes todos os dias da semana e quando chega sexta-feira e sábado, então, nem se fala.

É um povo que não gosta muito de silêncio. Logo no café as famílias numerosas fazem um verdadeiro alvoroço à mesa. Os problemas inclusive podem ser perfeitamente resolvidos lá, pois não é difícil a mãe ou o pai dos jovens brigarem com eles. Mas o que é fascinante é que ninguém fica magoado, mesmo que tenha levado uma porrada (o que não é raro). Quando chega a noite a moçada se reúne nos barzinhos onde iniciam o processo de embriaguez e as discussões acerca do destino que tomarão mais tarde, ou seja, para qual boate ou casa de show irão.

Para se ter um idéia da “impregnação cearense” na gente basta dizer que cheguei pela manhã e à noitinha já estava involuntariamente chamando todo homem de “macho” e toda menina de “mulher”. No quarto dia eu só conseguia almoçar se tivesse como acompanhamento um naco enorme de rapadura. No dia seguinte já havia desistido de mudar de estação de rádio em busca de algum estilo de música diferente do forró. Aliás, eu sempre pensei que forró fosse uma coisa com sanfona e triângulo, tocada por gente usando chapéu de couro. O que chamam de forró aqui é uma banda com uns quarenta componentes (sem exagero algum)  entre músicos, dançarinos fazendo malabarismo e contorcionismos e cantores. Isso mesmo, cantores, são pelo menos três para cada banda cantando alternadamente ou ao mesmo tempo. Um barulho infernal. As músicas são, em geral, versões aforrozeadas do que outrora fora antigos sucessos internacionais ou mesmo sambas, pagodes, músicas sertanejas, etc. Não precisa ter voz melodiosa para ser cantor de forró. Pode ser anasaladíssima, quase fanhosa ou rouca. O que importa é que seja estridente e que o cantor ou cantora se comprometa em (a cada dois minutos) gritar o nome da tal banda e o volume do cd. Talvez porque todo mundo canta música de todo mundo e as vozes são sempre muito parecidas. Para finalizar devo lembrar que não há show exclusivo. Numa única apresentação podem se apresentar até dez bandas, alternadamente, claro.

É assim mesmo. O pessoal gosta de barulho. Só para ter mais uma idéia dou outro exemplo: a gente não consegue conversar direito nos bares porque tem sempre dois ou três carros com os porta-malas levantados exibindo enormes caixas de som ou mesmo rebocando paredões de alto-falantes estourando os ouvidos de todo mundo com... adivinha? Forró.

As praias. As praias são cheias. Muita gente com biquini minúsculo e tanguinha. O sol é escaldante e as pessoas não se importam em só sair debaixo dele depois que estiverem comprometidas com uma queimadura de segundo grau e um filhote de câncer de pele.

Eu fiquei debaixo de uma barraca enorme e toda calabreada (expressão cearense) de bloqueador solar nº 50. Contudo isso acho que peguei uma ensolação daquelas que nos fazem ter delírios, porque sou capaz de jurar que ouvi o borbulhar de fervura vindo de dentro de alguns cocos que havia num coqueiro anão plantado pertinho onde eu estava sentada. Mas, pensando bem, pode até que estivessem fervendo, de fato.

Fomos numa cidade do interior cujo nome é o mesmo do nosso colégio: Canindé. Vi milhares de peregrinos – chamados romeiros – visitando a cidade. Mas foi só o que vi pois o calor ali é tão intenso que passei a maior parte do tempo semi-desmaiada e desidratada apesar de estar o tempo todo tomando água, sucos, refrigerantes e isotônicos. O calor é muito maior do que num deserto. Sou capaz de apostar. Mesmo assim as pessoas aparentavam um ar de felicidade e calma. E andavam todas no meio da rua sem se preocupar com os automóveis.

De Canindé fomos até uma cidade serrana chamada Guaramiranga. Apesar de estarmos em pleno semi-árido o clima da serra nada deixa a desejar em comparação ao friozinho de São Paulo.

É muito engraçado conversar com os cearenses, sem querer menosprezá-los, é claro. O modo de falar deles é, de fato, muito engraçado. Falam rápido, engolem sílabas e até mesmo palavras inteiras. Usam um sotaque muito legal que em nada se parece com aquela imitação barata de nordestino que vemos atrizes a atores de novelas tentando fazer. Nada se parece com o sotaque “cantado” dos baianos e não usam termos como “o xente”. Em compensação eles têm um vocabulário próprio e que, creio eu, só os cearenses entendem. Com exceção dos jovens que parecem ter vergonha de seu linguajar nativo, ao contrário da juventude gaúcha que o preserva, todo mundo entende se alguém disser: “oí, mulher, aquele caba deu um coió medõi quando tu passou”. Há nas bancas e livrarias dicionários do cearês, onde a gente pode aprender a se comunicar e compreender muita coisa do que parece ser um dialeto. As vezes alguém passa horas falando com a gente e no final não deu para entender um terço do que foi dito. Mas eles se entendem. Isso eu achei fascinante.

O cearenses são maravilhosos e inteligentíssimos. Traçam os primeiros lugares de qualquer concurso nacional e ainda tomam a vaga que houver em qualquer emprego.

As pessoas falam umas com as outras, mesmo com as que não conhecem. Se você perguntar onde é uma rua, a pessoa indagada se oferece para levar você lá. Se você tropeça e cai na rua não vai faltar que tente levantar-lhe. Mas também quem cai, tropeça ou faz alguma coisa por engano toma uma vaia enorme. O cearense adora vaiar. São vaias estridentes e de um modo bem peculiar.

Por falar em vaia...o Ceará é um... como direi? ...uma indústria de comediantes! Todo mundo tem veia cômica. As pessoas riem de si próprias e de qualquer coisa. Os humoristas nas inúmeras casas de shows são engraçadíssimos e os turistas adoram.

Finalmente, tirando uma coisa ou outra, o resto é tudo bem parecido com Sampa querida. Cheia de prédios, violência, péssimos motoristas, uma poluiçãozinha, favelas, sujeira, etc.

Pois bem, agora finalizo a redação a la cearense:
“meu bixim”, dá licença mas eu agora vou “pegar a reta”.
SÃO PAULO, SÃO PAULO, DOZE DE AGOSTO DE 2005.



Escrito por Tony Maclaud às 20h16
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A PRIMEIRA VEZ

Eu já havia começado a digitação, reproduzindo pelo teclado as palavras do Juiz quando um amigo chamado Valdez, estudante do curso de Direito e que tem estagiado conosco lá no Fórum entrou na sala de audiências. Cumprimentou-me com as sobrancelhas e sentou numa cadeira no canto da sala. Inclui seu nome no termo e o juiz continuou o ditado. Ao final Valdez acompanhou-me até a copiadora a fim receber uma via da ata da audiência.  Enquanto caminhávamos ele me perguntava onde eu havia andado, posto que não me via trabalhando ali a alguns meses. Respondi que estive executando um serviço para o Serviço Geológico do Brasil e estava viajando pelo Nordeste.

 

- rapaz eu pensava que tu eras formado em Direito. Perguntou-me.

 

- nada. Sou geógrafo. E doido pela profissão. Mas enquanto não entro para um Ibama desses da vida vou levando aqui, como escrevente. Quando me contratam para realizar algum serviço na área da geografia tiro uma licença e me mando.

 

- tu foi de avião?

 

- nada! Era de carro mesmo, de Estado em Estado até a Bahia. O Nordeste todo.

 

- cara! Se tivesse falado comigo eu teria arranjado pra tu ir num avião da FAB. Eu sou mecânico lá da Aeronáutica. Você inscreve seu nome e quando tem um vôo eles levam.

 

- ora e eu sabia? Aliás, meu amigo, eu nunca viajei em avião. Nunca nem entrei num.

 

- pois se tu quiseres eu te aviso quando houver uma vaga.

 

- tá é feito. Pode arrochar! Fechei.



Escrito por Tony Maclaud às 23h10
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CONTINUAÇÃO

 

Pois não é que hoje pela manhã o Valdez ligou para minha casa informando que havia uma vaga num Bandeirante do Correio Aéreo Nacional! Confirmei no ato. Em seguida fui contar, morto de alegre para tia Ana, que iria dar um passeio e que seria a primeira vez de avião. Ela vive dentro das aeronaves indo para cima e para baixo. Seu importante cargo Federal impõe-lhe isto. Olhou com desdém e pisou na minha alegria de menino.

 

- grande coisa. Um sujeito da tua idade indo atrás de uma besteira dessas. Eu tava aqui olhando tua alegria no telefone pensei que fosse coisa mais séria. Achei que fosse uma proposta de emprego, o resultado de um concurso, um colégio te convidando pra ensinar. Alguma coisa que complemente tua renda. Esse teu empreguinho e essas tuas viagens tão esporádicas não estão dando pra pagar o carro nem nada. E blá, blá, blá, blá...

 

- quer saber de uma coisa! Disse eu, muito aborrecido. Hoje não tem motorista. Pegue carona com outro. Eu vou viajar no avião, sim. Sempre quis isso. E reze para eu cair, pelo menos você fica com tudo que é meu.

 

- ahahahahahahahahahahahahaha! A única coisa que tu tem é uma coleção do Raul Seixas, de vinil e um amontoado de livros velhos acabados pelas traças. Para que eu vou querer lixo! Deixe pra sua mulher!

 



Escrito por Tony Maclaud às 23h10
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CONTINUAÇÃO

 

Liguei para o trabalho e disse que não poderia ir. Amanheci com uma virose horrorosa.

 

O avião estava sendo preparado para o vôo. Era um Bandeirante. Um caminhão estacionado à frente abastecia o tanque. Fiquei olhando a fuselagem. Um sujeito de macacão e com uma prancheta dirigiu-se a mim e perguntou meu peso.

 

– cento e vinte respondi.

 

Ele anotou ali.

 

- alguma bagagem?

 

- Só essas coisas. Disse, mostrando um saco plástico de mercantil contendo uma garrafa de mineral, um pacote de wafle, o celular e as chaves do carro.

 

“Eu sou mesmo um retardado” – pensei. “tia Ana tem razão. Olhe pra mim. Que idiota!”



Escrito por Tony Maclaud às 23h08
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CONTINUAÇÃO

Os motores foram ligados. Dois motores. Hélices enormes. Comecei a sentir medo. “aquele sujeito veio me perguntar quanto peso porque o excesso de peso pode derrubar esta porcaria”- conclui. “Será que vou morrer hoje?”

 

Cai na realidade e meu cérebro começou a matutar acerca daquela situação. Fiquei pensando:

 

“meu Deus, o que diabos estou fazendo aqui? Se eu nunca andei de avião foi porque eu nunca tive coragem! Valei-me meu São Francisco do Canindé! Onde foi que eu vim me meter?”

 

“tenho que ir embora, tenho que ir embora, tenho que ir embora”.

 

Sempre fui homem de enfrentar qualquer desafio. Não sou de fugir de perigo algum. Já me apontaram arma e eu enfrentei o cabra, até tomei o revólver dele. Assumi culpa de danações na infância mesmo sabendo que iria apanhar de papai. Sempre fui muito macho. Apenas uma vez. Uma vez, senti esse pavor, esse pânico. Somente uma outra vez na minha vida me desesperei e quis sair correndo. Foi quando resolvi casar. Lembro perfeitamente que sai de perto da Juíza de Paz segundos antes de ela começar a falar. Fui para a porta do cartório. Queria correr. Queria morrer. Pedi a Deus que caísse um piano na minha cabeça. Olhei para o céu e implorei que um disco voador me resgatasse. Decidi e prometi a mim mesmo, naquele instante, que se passasse um táxi ali na minha frente, seria um sinal Divino e eu entraria nele. Mas nada. Tive que voltar. Enfrentei tudo. Havia dado minha palavra. Havia dito “sim, eu caso”. Maldita cachaça que permitiu cair naquela conversa de “eu te amo”, “ a gente é alma gêmea”. Mas o que eu queria mesmo era sair correndo.

 

Pois bem.  Embaixo daquele angar, eu me apavorei. Afinal, iria sair do chão. Uma vez peguei um táxi e após dizer ao motorista meu destino ele perguntou:

- a que altura?

- olhe, se você passar de três metros eu desço dessa lata velha!

 

Brincadeira. É só uma piada! Sem a menor graça, por sinal.

 

O que aliviou tanta tensão foi ver que quatro lindas mulheres iriam também. “pelo menos se eu morrer vai ser junto com essa ruma de mulher”- ponderei. “na hora que o avião estiver caindo elas vão pular em cima de mim. Morte gloriosa!”

 

Não tinha mais jeito. Embarquei no bicho. Antes de entrar li um emblema colado embaixo da janela do piloto que dizia: êita cabra macho! “isso quer dizer alguma coisa! Será que ele ta querendo dizer que o sujeito pra voar naquilo tem que ser muito macho? Êpa! E esse pica-pau montando em cima de uma bomba? Tô ferrado, tô ferrado. Isso é um sinal!”



Escrito por Tony Maclaud às 23h06
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A PRIMEIRA VEZ - CONTINUAÇÃO

 

 

O bimotor taxiou pela pista e ficou de frente para uma reta enorme. Eu estava suando muito. Tentava disfarçar meu nervosismo diante das moças que estavam ali muito tranqüilas. Percebi que outra pessoa estava mais nervosa que eu. Era o piloto. Sentado logo a minha frente ele se mexia bastante e suas mãos tremiam mais que uma Toyota no ponto morto. Entendi que o sujeito do meu lado era um instrutor e o piloto ainda não era de fato um “piloto”.

 

Faltou-me logo o ar. Novamente a frase da minha empregada, a Rocilda, me veio ao pensamento quando ela diz: “me deu logo um sistema nervoso!”

 

O avião pegou embalo. Agora não tinha mais jeito. Eu iria sair do chão. O barulho do motor era ensurdecedor. Lembrei que havia recebido do Valdez um par de abafadores. Enfiei tapa-ouvidos nos respectivos orifícios. O som até que diminuiu um pouco.

 

Subi. As casas iam ficando pequeninas. Eu estava muito ofegante. Uma das passageiras, vendo aquele aperreio todo perguntou se eu estava com falta de ar.

 

- não minha bichinha. É falta de terra!

 

Bom. O avião se estabilizou. Eu comecei a relaxar e passei a curtir o passeio. Seguimos pela orla marítima de Fortaleza até Natal. Via o sertão de um lado e o mar-sem-fim do outro. Apesar de quase perder minhas trompas (de Eustáquio) com tanto barulho.

 

Passei outros maus-bocados quando aterrissamos. O avião descia muito rápido e a impressão que eu tive é que estávamos descendo de bico. Caído de bico, na verdade. O piloto e o instrutor ficavam berrando no microfone: “VM,VM,VM! Eu calculei que aquilo fosse um código para a torre de controle e significava: “vamos morrer, vamos morrer, vamos morrer! Porem a volta foi tranqüila. Era fim de tarde. As paisagens deslumbrantes. Maravilhosas.  Avião pequeno voa baixo e por isso a gente aproveita bastante as vistas. E eu nem morri.

 

Deixei meu nome escalado para uma eventual viajem para Sum Paulo.



Escrito por Tony Maclaud às 23h05
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QUE DIA LINDO!

Data de hoje: Um dos últimos dias desse mês do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, às três da madrugada.

 

Infame diário, 

 

Já estou zonzo, graças a Deus. As pálpebras já começam a pesar sobre as órbitas. O Lexotan vai finalmente fazer efeito. Deixei de escrever ontem pelos motivos que abaixo descrevo.

 

Retornemos ao anteontem.

 

Não conseguia dormir. Fiquei bolando na cama. Os pensamentos transformaram-se em fantasmas e resolveram me atormentar. Havia o fantasma “paga tuas contas fid’uma égua”, o fantasma “vai estudar vagabundo”, o fantasma “seja homem e arrume um jeito de ganhar mais”, dentre outra dúzia de almas penadas cujos nomes não ouso mencionar nem mesmo neste secretíssimo diário o qual, querendo Deus, ninguém nunca terá conhecimento. A horda não me deixava dormir, mas não atormentava tanto quanto os fantasmas da consciência. Esses sim me cobravam atitude e me esfregavam na cara quem eu realmente sou.

 

Levantei fui ao banheiro pela milionésima vez. Fiquei lá olhando para o vaso. Resolvi ir deitar na varanda. Armei a rede e fiquei olhando para o céu. Míope, via apenas manchas de estrelas e nuvens que se acumulavam rapidamente. Não durou muito o vento forte desfiou algum cúmulo ou nimbo carregado ou o raio que o parta e despejou sobre mim uns dois litros d’água. Desarmei a rede às pressas, entrei, me enxuguei com o próprio lençol e voltei para a cama. Não demoraria mais para o dia amanhecer. Talvez um pouco até que o calor do sol nascente desmanchasse as frágeis nuvens nordestinas. Teria que entrar de qualquer jeito, pois o sol é quem me expulsaria da varanda.

 

Deitei e senti que dormiria. Que sensação maravilhosa. Era cinco da manhã e ainda teria cerca de duas horas para recuperar algo da noite perdida.



Escrito por Tony Maclaud às 23h02
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QUE DIA LINDO! continuação

 

Começou o dia maravilhoso que a noite tentara anunciar durante horas quando não me deixou dormir. Cinco minutos depois de cochilar, tive que acordar. O alarme do carro disparou, inexplicavelmente. Nem um ladrão sequer chegou perto do carro para que eu pudesse por a culpa. Constatado que era o meu carro - sim, porque antes disso praguejei contra todos os proprietários de carro do prédio, vizinhos, adjacentes e similares – tive que descer quinhentos andares para desligar o alarme antes que os vizinhos viessem à minha porta. Não encontrei os chinelos. Lembrei que os havia esquecido numa poça na varanda. Desci descalço.  Os primeiros degraus frios despertaram minha sinusite e “vamos espirrar” e ficar com o nariz entupido o resto do dia.

 

Liguei o televisor. Estava passando Madureza Ginasial ou Concertos Para A Juventude, não lembro e isso não importa. A Adriana acordou e me chamou para a cozinha. Eu iria experimentar o café feito pela doméstica que começara a trabalhar para nós naquele dia, naquela manhã. Provei a gororoba. A Adriana fez a pergunta que não devia e, pior, na presença da secretária.

- e aí? Gostou do café?

Pela careta que fiz nem precisava responder, porém, depois da noite “maravilhosa” minha língua soltou-se:

- essa criatura conseguiu um feito extraordinário. Fez um café pior do que o teu. Nunca imaginei uma coisa dessas! Falei a verdade.

 

Nunca tomo café da manhã em casa e pelo visto, com um comentário daqueles, nunca vou sentir esse prazer.

 

Fui deixar no trabalho uma quase ex-esposa. Pense numa cara feia! Fez apenas uma pergunta durante o trajeto:

 

- Ô Tony, como é que tu define casamento?

 

- casamento é como um “Salve Rainha”: no começo é “vida, doçura, esperança nossa”, lá pelo fim é “gemendo e chorando nesse vale de lágrimas”. Disse isso tentando faze-la rir. A emenda saiu pior que o soneto.

 

A situação ficou pior que dormir em casa mal assombrada com lençol curto. Vamo pra frente.

 

A manhã foi um período da minha vida que apaguei da minha memória. Pularei, pois, para dez para o meio dia. O famigerado celular chama. Era a Adriana querendo almoçar e ter uma conversa. Deduzi, pela lógica que a finalidade do almoço a dois, encontro raro nesses anos de convivência, seria minhas contas devidamente batidas e sem direito a indenização nenhuma.  Enquanto dirigia não pensava num meio de contornar a situação. À minha mente vinham pensamentos tais como sair do restaurante e ir direto para uma revenda de automóveis, desfazer-me do carro e comprar uma motocicleta. Voltar aos tempos em que imitava o Marlon Brando em O Selvagem. Bons tempos dos quais restam apenas lembranças e cicatrizes pelos braços.



Escrito por Tony Maclaud às 23h01
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QUE DIA LINDO - CONTINUAÇÃO

Preencha as lacunas:

 

Fiquei na chuva

Todo molhado

Porque o carro, apesar de novo, resolveu dar o prego

Estava sem uma banda no bolso

O celular descarregou

Eu indo buscar a Adriana

E eu perguntava: Quem ia me tirar dali? O Bush? o Bilau? o Sadam? ninguém?

 

Muito bem. Você acertou todas.

 

Desci e empurrei o carro sozinho. Digamos que ele pegou. Saiu esgasgando, estancando e pulando como uma milonga. “você vai seu corno” – resmunguei. Êpa! Peraí! Essa frase foi eu quem disse para o carro e não o contrário.

 

E num morre-não-morre o carro seguiu. Quase morro de raiva. Em compensação quase mato de raiva os demais motoristas. Provoquei um engarrafamento de 1Km. Estava vingado!

 

E tome chuva!

 

Para variar, a Adriana ainda nem havia descido. Após muita espera, resolvi ir chamá-la. Enfiei o pé na lama, proferi sete ou oito palavrões e atravessei a avenida. Pedi ao recepcionista que interfonasse para a sala dela e avisei a situação do carro. Adiamos a conversa para a noite.

 

Implorei a um pobre coitado que me ajudasse a empurrar o “possante” e guiei até uma oficina. Para variar, dentro da oficina o carro ficou perfeito, de repente. É mole?

 

O mecânico com ar de expert mencionou mil motivos para deixar o carro daquele jeito. Podia ser fio entupido, parabrisa empenado, vento na rabichola, espinhela caída, excesso de coisa dentro do negócio, etc. Tinha que interná-lo a tarde toda. Não quis esperar. Preferi sair caminhando. Caminhar é o melhor e mais eficaz remédio para cabeça quente.

 

Saí perambulando pelo centro da cidade. Vagava por entre a multidão. Quando falo multidão não estou exagerando. É uma multidão mesmo.

 

Passeei pela praça José de Alencar. Há de tudo ali. É como a feira de Caruaru, tão bem descrita pelo saudoso Luiz Gonzaga. Só que ao invés de coisas variadas o que temos aqui é gente de toda espécie. Cantador de viola, repentistas, emboladores, evangélico pregando sozinho e aos gritos, evangélicos pregando sozinho mas com um alto-falante furado e no último volume, barbeiro e cabeleireiro ao ar livre, vendedor ambulante (aos borbotões), bêbados, andarilhos, mendigos, gente indo, gente voltando. Uma coisa esse pessoal todo tem em comum: Oh povo feio! Pelo amor de Deus.



Escrito por Tony Maclaud às 22h59
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QUE DIA LINDO! - CONTINUAÇÃO

Apesar de tudo é um lugar muito agradável. Se a finalidade for se distrair, então, não há lugar mais indicado. E assim ia eu. Caminhando sem rumo. Sem dinheiro. Distraído.

 

Aproximou-se de mim, vindo por trás, um casal. A mulher com uma criança nos braços. O pai trazendo um menino. Cinco ou seis anos. Minúsculo. Raquítico. Por infelicidade, a criança aproximou-se demais dos meus passos que, embora lentos, deslocavam meus cento e vinte quilos.

 

Não entendo até agora e creio que a física teria uma dor de cabeça danada para calcular, mas, de algum modo, topei na criança. Senti apenas um leve toque em meu sapato -  tamanho 44, modelo coturno de PM – o que foi o bastante para arremessar o esquálido ser humano à minha frente. Meu Deus!

 

A imagem que marcará minha vida para sempre: um passarinho decolando aqui do meu lado e voando em direção a sei lá onde. Com os braços abertos. As pernas idem. Apesar de ter sido tudo tão rápido, a cena ficou gravada aqui na minha cachola, repleta de detalhes. Como se tivesse sido filmada sob vários ângulos.

 

Antes de ele voar para frente vi seus olhos. Esbugalhados como farol de Jipe. Aterrorizados e surpresos. Vi-o se distanciando, volitando. Suspenso no ar. O vento flamulava sua bermuda de Xita. Aquelas canelinhas tão finas! Que calamidade.

 

Projetou-se das mãos daquele frágil ser um objeto pequeno, vermelho. Como um míssil disparado de um Mig. Era um boneco do Power Ranger. E foi-se para sempre o pequeno e estimado brinquedinho do menino voador.

 

Oitocentos. Mil metros depois o coitadinho perdeu a pressão. Pane no motor. Ele aterrissou. Como um albatroz cego. Embriagado. Um Hércules sem trens de pouso. Arrastou-se por vários metros. Voavam faíscas. Seriam seus dentes atritando na calçada?

 

Corremos todos. Eu, seus pais, transeuntes...

 

“matei, matei, matei” – eu pensava horrorizado. “aqui não há ambulâncias. Ele pode precisar de um desfibrilador!”

 

Ele ainda respirava. Graças a Deus. Estava tremendo. Como diria minha cultíssima doméstica, a Rossilda: “Deu-lhe logo um sistema nervoso!!”.

 

A criança continuava com os olhos arregalados. Perdido. Como cachorro que cai de cima de caminhão de mudança. Tomei-o nos braços. Muito nervoso, fiquei balançando o pobre. Seus pais chegaram. Tentaram toma-lo de mim. Todo mundo em pânico. Eu não conseguia soltá-lo. Tinha que salvar aquela vida. Era minha responsabilidade.

 

Dos olhos daquela pequena vítima do infortúnio (e dos meus cascos) escorreu uma lágrima. Eu a segui enquanto escorria pelo rostinho sujo de lama e sangue. A roupinha que, certamente, sua mãe havia lavado, engomado e vestido com tanto gosto estava inutilizada. Rasgada. Rôta. Enlameada.

 

De repente, daquela boquinha pequena e rebocada de lama e pedrinhas, saiu um som muito baixo, trêmulo, choramingado. Ele não chamou pela mãe ou pelo pai. Não clamou a Deus. Ele apenas disse:

 

- cadê meu Paué range?

 



Escrito por Tony Maclaud às 20h09
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QUE DIA LINDO! - CONTINUAÇÃO

Aquilo foi demais pra mim. Seus pais o tomaram nos braços.  Acalentavam-no. Abraçavam-no. Eu não consegui falar. Desculpar-me. Justificar alguma coisa. Sai. Fui embora. Arrasado.

 

Tive uma crise de choro incontrolável. Enquanto caminhava as lágrimas escorriam como se tivessem vontade própria. Os óculos embaçados.  Fiquei com a imagem do pobre menino se esparramando no chão. Com um sentimento de culpa pesadíssimo. Ele teria cicatrizes? Ficaria gago. Como estaria o Power Ranger àquela hora? Perdido, sozinho. As pessoas pisando em cima.

 

Entrei numa rua menos movimentada. Tomei um caldo de cana, comi um pastel. Pedi um café e resolvi fumar um cigarro. Havia parado de fumar havia alguns anos. Mas precisava relaxar. Continuei andando. As lágrimas ainda rolavam pela cara.

 

Senti um puxão no braço. Como um soco. Não sei. Foi um impacto muito grande. Pressenti que poderia ser o pai da criança vindo em busca de vingança. “era o meu fim” – pensei. Qual nada. Era um ladrão. Um punguista safado. Enfiou os dedos pela pulseira do meu relógio, tentando soltá-la, quebrá-la, arrancá-la. Não conseguiu. Ficou ele puxando, pulando. Não conseguia.

 

- não reaja. Não reaja. Ele ameaçava.

 

Eu fiquei sem ação. Podia levar o relógio se quisesse. Que levasse! Mas me deixasse em paz.

 

O incompetente desesperou-se. Não conseguia arrancar meu relógio e, pior, não conseguia soltar-se. É como se a pulseira do relógio tivesse se transformado em algemas.

 

Comecei a ficar apavorado. Calculei que ele, por sentir-se ameaçado, poderia puxar alguma arma e me ferir.

 

Desferi sobre sua cabeça uma pancada. Uma marretada com os punhos fechados. Não porque quisesse reagir ao assalto e nem muito menos porque seja valente. Pelo contrário. Agi pelo medo. Num impulso.

 

Lá se vai mais uma criatura esparramada no chão por minha culpa. E tudo no mesmo dia.

 

O sujeito ficou lá semi-desmaiado. As pupilas girando.

 

O pessoal encostou. “pegou ele”, “pegou o ladrão”, “vamo chamar a polícia”. A palavra polícia serviu como um bálsamo ao bandido. Este levantou-se e saiu tomando qualquer rumo. Andava e caia. Levantava e sentava. O mundo girando.

 

Tirei o relógio e o coloquei no outro braço. Ficam alguns hematomas no pulso esquerdo. Nada grave. Continuei andando. Resolvi voltar à oficina. A tarde chegava ao fim.

 

O mecânico me roubou. Como sempre. Fui para casa. A Adriana já estava lá. Para minha surpresa, pediu desculpas e sugeriu que ficasse tudo bem. Ela foi passar o final de semana na casa da mãe e eu continuei sem minha Harley. Melhor assim.

 

Antes de ir pedi que me deixasse alguma coisa que me fizesse dormir. Dois lexotan. Engoli. Nada de sono ou relaxar. Resolvi fazer anotações no diário. Agora vou dormir.

 



Escrito por Tony Maclaud às 20h06

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VOVÔ E OS SOLDADOS DA BORRACHA

Pois é. Demorei mas voltei. Andei viajando. Estou em casa há algumas semanas mas doido para desabar no meio do mundo novamente. Navegando pela rede, caí na rede da Joaninha (http://ladybugdiary.zip.net) amiga leitora destas minhas publicações e cujo blog é um delicioso entretenimento. Na verdade, não caí, me joguei. Que a Adriana(dona minha) nunca saiba. Fui correndo confessar-me e, ao mesmo tempo, fazer uma consulta psicológica com minha sábia vozinha. Cheguei em péssima hora na casa de meus patriarcas, pois, como dizem por aqui “o pau tava truando”. Meu primo Salles, que aquelas alturas já havia tomado umas três cervejas - no meio das outras – estava levando uma carão(bronca) do meu avô. Pense, agora, numa ruma de gente valente! Meu avô se diz muito macho. Conta cada história que faz gosto.

– Como é que um cabra é mole como você, rapaz! Onde foi que já se viu uma mulher daquele tamanho se atrepar no seu lombo e dizer aquelas miséras todas? Gritava o velho, com os olhos arregalados.

O caso é que meu avô havia ido visitar o neto, meu primo Salles e chegando lá ouviu sua mulher, a Biza, lhe esfregando umas verdades na cara. Ela estava doida da vida porque o Salles anda praticamente amancebado com uma garrafa de pinga. Nem lembra das obrigações do lar (se é que me entendem). Chamava o ressaqueado Salles de cabra sem-vergonha, raparigueiro, cachaceiro, fulerage e outros adjetivos desse naipe para baixo. Salles, sujeito mais grosso que papel de enrolar prego, ali caladinho, só ouvido, de cabeça baixa e ainda por cima desfrutando uma ressaca daquelas que quando cai uma pena no chão a gente jura que é um sino. É de causar espanto. Por muito menos a Biza teria levado uma advertência em cima do assistidor de novela. Ele calado!!! Só posso imaginar uma coisa: a consciência do bruto deveria estar mais suja que passado de evangélico. E não devia haver feito coisa muito bonita, porque, nunca se ouviu a Biza falar mais alto que uma girafa.

E foi tudo flagrado pelo meu avô.

O ancião voltou para casa arrasado. Nem anunciou-se. Deve ter imaginado que séculos de concretização e sobrepujança do machismo teriam ido por água abaixo. Graças a Deus ele nem sonha que nessa água eu nado igual a uma chave de fenda!

Na primeira visita do Salles à sua casa vovô aproveitou para fazer seu sermão de regeneração a fim de salvar a alma e a honra de seu neto querido.

Foi nessa hora que eu fui chegando por lá. O leriado se desenrolava na sala. Quem ia chegando, ao ouvir a zoada, não se atrevia a passar naquela dependência da casa. Arrodeava pelo oitão e ia direto para cozinha.

A família é enorme, como é de se imaginar. E gente do sertão é assim: vindo um morar na capital, sua casa torna-se, automaticamente, casa de apoio e abrigo para os familiares e uma multidão de conhecidos da terra natal. Não há um dia em que se encontre na casa menos de dez pessoas. Pois esse povo todo estava ali nesse dia. E meu avô vendo gente de fora é que aproveitava ainda mais para fazer sua propaganda.

– Na sua idade (garanto que pelo menos um de seus pais, caro(a) leitor(a) já começou um sermão com essa frase) sabe onde eu estava? Desafiava, comprimindo a cintura com as mãos fechadas. – Em riba de um pau-de-arara indo daqui para o Acre.
– Êpa! Pensei, eu. Essa do Acre eu não conheço. Entrei de uma vez com essa “êpa” na boca. – Vô, que conversa é essa? Eu não sabia que o senhor já havia andado pr’aquelas bandas. Me conte aí, rapaz.
– E você num sabia não? Ora, mas essa história todo mundo já sabe!
– Eu não. Como foi?

Pronto. Terminou a briga e acabei aliviando a barra do Salles. Ele me cumprimentou fazendo um aceno com a cabeça e apertando os lábios como quem evita um sorriso ou uma risada.

– Maria! Faz aí um chazim de capim santo enquanto eu conto aqui uma história pros meninos. Ordenou em voz alta à minha avó.
– Peraí. Responderam da cozinha, confirmando as ordens.

Alguém ficou na cozinha preparando o tal chá. Como o motivo da conversa agora eram as “pabulagens” de meu avô, alguns vieram para a sala ouvi-las. Vovó Paulina, sentou-se junto a mim no sofá e cochichou.

– Essa eu também quero ouvir. Quero saber o que ele vai inventar dessa vez. Referia-se ao fato de meu avô incluir em suas histórias mil e uma outras, tornando um fato simples numa verdadeira epopéia recheada de mentiras, digo, de aventuras.
– Pois é. Vocês num tão sabendo, mas eu fui um soldado da borracha. Praticamente um “sargento” da borracha!
– Grande merda! Você num foi soldado coisa nenhuma. O que você era mesmo era um arigó!
– Olha aqui, Paulina, acho bom você ficar calada. Não me faça ir aí.
Nunca vi olhar tão sério. Acho que vovó também não, pois calou o bico ligeirinho.



Escrito por Tony Maclaud às 22h37
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VOVÔ E OS SOLDADOS DA BORRACHA - continação

Ocorreu que a partir de 1943 até 1945, por conta da segunda guerra mundial, cerca de 55 mil nordestinos foram levados para a vasta região amazônica a fim de extrair látex, de acordo com o que levantou o cineasta Wolney Oliveira, diretor do documentário Vitória Para a Borracha. Segundo se sabe, o presidente Getúlio Vargas assinou os Acordos de Washington com o presidente norte-americano Delano Rooselvet. Pelo que conta uma reportagem especial, também tirada do jornal O Povo, publicada em 1998, juntamente com outra publicada pela jornalista Ariadne Araújoe, em 19 de abril deste ano, uma das cláusulas do acordo consistia na obrigação por parte do Brasil, de extrair da Amazônia, o maior reservatório natural de látex do Planeta, 100 mil toneladas de borracha por ano, como esforço de guerra, e mais: o material coletado nos confins da mata fechada salvaria os países aliados do colapso bélico e, dessa forma, de uma derrota para o eixo. Transcrevo adiante um pouco mais da matéria da jornalista Ariadne Araújo, do jornal O Povo, só para você ter uma idéia do espatifado: “(...) Por causa disso, um plano de atração de mão-de-obra foi colocado em ação. A idéia era levar, em caráter de urgência, cerca de 55 mil homens para o trabalho na floresta. No Nordeste brasileiro, uma nova seca e a repetição dos antigos problemas sociais decidiu de onde sairia o contingente necessário para a campanha. Sob o patrocínio dos governos brasileiro e norte-americano, de todas as partes do semi-árido, em especial do Ceará, uma grande população atravessou de um a outro lado do País. Com as bênçãos de Getúlio, era o exército a borracha. Só no ano de 1945, esse exército recrutado às pressas, em uma campanha de engodos e desorganização, aumentou o estoque de borracha natural dos países aliados de 93.650 para 118.715 toneladas. Mas eles pagaram caro por acreditar na proteção da estrutura montada pelo governo. Segundo os jornais da época, cerca de 31 mil migrantes morreram na tentativa de garantir matéria-prima para os Estados Unidos. Os sobreviventes, após o término da guerra, foram deixados na Amazônia, sem o cumprimento de uma das cláusulas no contrato de trabalho -  a de uma passagem de volta para casa. Hoje, lutam por uma aposentadoria e por terem seus direitos reconhecidos nessa história que também foi conhecida como a saga dos arigós.”

Li em um trecho do artigo acerca desse documentário dirigido por Wolney Oliveira, publicado em 19 de abril deste ano, no jornal O Povo, o testemunho de um sobrevivente daquelas bárbaras e recentíssimas eras: “ o homem que alistava disse que aqui se ajuntava dinheiro com cambito. O mais preguiçoso ganhava 50 mil réis deitado na rede”. De modo que quando ouvi meu avô dizer que havia participado daquela empreitada, lembrei do que havia lido no jornal e até imaginei que a frase pudesse ter sido proferida por vovô. Mas não. Quem teve a iludida convicção foi um senhor chamado João Vieira da Silva, potiguar de 83 anos.

Vovô falava e falava. Contava histórias em que enfrentou onças desarmado, índios guerreiros e cobras enormes. Mentia tanto que esquecia o que estava contando. Afinal, um bom contador de lorotas tem que ter por obrigação uma excelente memória. O que não é o caso de vovô.  Lá pelas tantas contava sua luta com uma onça gigante e enorme:

– Eu sei que saí bolando com essa onça serra abaixo e a bicha urrava e gemia e me abraçava com a unhas. E naquela luta medonha, eu já cansado de lutar com a fera, sem possuir um canivete na bainha, me desesperei e larguei a dentada nos “vazis” do animal. A onça gritava e se controcia, a lágrima chega escorria pelo canto do olho dela (aqui para nós: e deu para ele ver esse detalhe, num sufoco daqueles?). Eu já estava com a boca cheia de cabelo.

Nesse momento o telefone tocou e alguém veio chamar o vovô dizendo que a ligação era para ele.

– Peraí que eu vou ai despachar aquele telefone e volto já. Saiu apressado carregando consigo a empolgação da conversa.

Acontece que vovô demorou-se ao telefone, e como empolgado estava, deve ter permanecido a mentir com quem quer que estivesse falando. Passado alguns bons minutos retornou completamente esquecido do que nos contava.
– Então vô, termine a história! Disse eu.
– Sim! Tentou lembrar-se o que falara, mas nada. – onde foi que eu parei?
– O senhor dizia que estava com a boca cheia de cabelo.
– Pois é, macho véi, aí eu peguei essa nêga rebolei pra cima, enfiei a cara lá e quase que eu mato a mulher de tanto prazer! Enrolou-se todo, o coitado. Achava que estava antes contando uma de suas aventuras na alcova.

O pior é que disse a besteira bem na frente da vovó, que deu um pulo e gritando com raiva ameaçou o velho:

– Que nêga o quê, cabra velho safado. Além de mentiroso ainda é broco! Começa uma mentira e emenda com outra. Se manca!
A gargalhada foi geral. Eu quase morri de rir da rata que o vovô deu. Ainda bem que na nossa família é assim. Qualquer confusão sempre acaba em gargalhada.

Um beijo para todos vocês



Escrito por Tony Maclaud às 22h36
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DESCULPA FRACA COMO CALDO DE BILA

Olá, meu povo querido! Quero pedir-lhes desculpas pela ausência. O negócio é que entrou um tal de vírus no meu computador e fez um estrago medonho. Não pude mandar para o conserto porque a coisa aqui em casa anda mais apertada que sutiã de sapatão e minha geladeira continua como uma boate – só tem luz e fumaça. No trabalho tem um computador mas como passo a tarde digitando (digito o que o pessoal fala durante as audiências) termino com os dedos tão acabados que não consigo nem dar um cotôco. Também ando estudando um bocado para enfrentar o concurso do Ibama. A partir de julho estarei de férias aqui da repartição e prometo que vou compensar atualizando nossa página todos os dias com o humor de sempre. Agora não consigo nem tenho conseguido nem uma inspiraçãozinha, por mais que tenha escutado a Hora do Brasil. Prometo também – e isso nem precisava prometer – renovar as visitas em suas páginas, onde me divirto como quando leio um bom livro. Obrigado, muito obrigado pela sua amizade. Não se preocupem, julho já está bem aí. Um abraço de 120 quilos!!!



Escrito por Tony Maclaud às 20h54
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